Módulo 4 – Curso pós-graduado – VIH e Envelhecimento

Renal Disease in HIV Infected and HIV/HCV Co-infected patients

Gestão clínica da doença renal em doentes coinfetados por VIH/VHC

Autor: Prof. Doutor Josep Mallolas, MD PhD (Hospital Clínic de Barcelona – Universitat de Barcelona,  Espanha)

Doença renal crónica e infeção por VHC: relação bidirecional de causa-efeito

O vírus da hepatite C (VHC) é um vírus de ácido ribonucleico (ARN) de cadeia simples com envelope lipídico (E), contendo glicoproteínas (E1 e E2) e um núcleo com um genoma constituído por 9500 nucleótidos.1 Os componentes de VHC são estruturais (núcleo, E1 e E2) e não estruturais (proteínas NS 1-5). Os genes não estruturais codificam várias enzimas, incluindo a polimerase responsável pela replicação de VHC.

Os isolados de ARN-VHC são classificados em seis genótipos distintos, dependendo da homologia de sequência genética.1 De forma idêntica a outros vírus de ARN, VHC caracteriza-se por uma elevada capacidade mutagénica, resistente à ação defensora do sistema imunitário humano.

A infeção por VHC e o desenvolvimento de DRC estão intrinsecamente relacionados, de maneira bidirecional.2 Por um lado, a infeção por VHC é uma das principais causas de algumas formas de glomerulonefrite, nomeadamente a glomerulonefrite  membranoproliferativa. Por outro lado,  o tratamento de DRC constitui um fator de risco para ocorrência de infeção por VHC, através de transfusões sanguíneas (anteriormente à implementação da triagem para VHC em indivíduos dadores), transmissão nosocomial em unidades hospitalares de diálise, e transmissão por enxertos renais.2

Consequentemente, a infeção por VHC é mais prevalente em doentes com DRC no estádio 5 e em transplantados renais, do que na população geral (a prevalência mundial de infeção por VHC é 3%, de acordo com OMS).1 O risco de mortalidade também está aumentado nestes indivíduos.1,3 Porém, existe um número limitado de estudos populacionais e não há dados disponíveis para muitas regiões do Mundo.

Recentemente, numa meta-análise sobre o risco de DRC em doentes infetados por VHC, foram incluídos 14 estudos englobando um total de 336.227 doentes com infeção e 2.665.631 doentes não-infetados.4 Esta análise concluiu que indivíduos infetados por VHC apresentam um risco acrescido em 23% de desenvolver DRC (RR: 1,23; IC 95%: 1,12-1,34;  p<0,001). Os resultados foram homogéneos entre estudos, e através de uma análise estratificada por países, foi possível observar um risco acrescido para os subgrupos de populações tailandesa (RR: 1,28; IC 95%: 1,21-1,36; p <0,05) e americana (RR: 1,17;IC 95%: 1,01-1,32; p <0,05).3 Num estudo de coorte representativa da população de veteranos (média de idade >50 anos) nos EUA, avaliou-se a incidência e o risco de progressão de DRC em doentes infetados por VHC, em comparação com pessoas não infetadas.5

De acordo com a análise, a infeção por VHC associou-se a um aumento de 15% de incidência  de decréscimo da função renal nesta população e de 98% de risco de progressão para IRC terminal. Para além disso, a mortalidade aumentou cerca de 2,2 vezes nos doentes infetados por VHC.5

Tendo em conta este risco de mortalidade eminente, o estudo REVEAL estabeleceu uma relação entre os níveis de mortalidade por causas hepáticas e extra-hepáticas em indivíduos com infeção por VHC na Tailândia.3 Em indivíduos com anticorpos anti-VHC, as patologias hepáticas que mais contribuíram para o aumento do risco relativo (RR) de morte foram o cancro de fígado (RR: 21,63; IC 95%: 14,83-31,54), as doenças hepáticas (RR: 12,48; IC 95%: 9,34-16,66) e as doenças crónicas hepáticas e cirrose (RR: 5,38; IC 95%: 3,15-9,19).3

Relativamente às causas de morte extra-hepáticas, esta população demonstrou maior risco de morte por doença renal, como por exemplo, nefrite, síndrome nefrótico e nefrose (RR: 2,77; IC 95%: 1,49- 5,15) e por doenças circulatórias (RR: 1,50; IC 95%: 1,10-2,03).3

Em suma, pode afirmar-se que a relação recíproca entre DRC e infeção por VHC envolve múltiplos fatores de risco e implicações graves para os doentes, especialmente, naqueles com idade mais avançada e diversas comorbilidades. Como tal, é prioritário o acesso a novas terapêuticas, mais eficientes e seguras.

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